quarta-feira, 14 de abril de 2010

Bolhas, superbolhas e megabolhas

Contraponto 7 - Como as “Bolhas” são criadas?!

A palavra “bolha” está na ordem do dia. Ela será utilizada no Contraponto para designar a valorização rápida, continuada e expressiva de bens, ativos ou commodities, sem motivo real ou fundamento econômico sustentável. O fenômeno, que é recorrente, tem alguns dos seus mais emblemáticos episódios listados a seguir.

1. A bolha das tulipas - Em 1635, um tipo raro de tulipa era cultivada na Holanda e virou moda. A valorização constante atraiu investidores internacionais que ajudaram a potencializar a “bolha”. Em dez anos, dois bulbos desta tulipa valiam tanto quanto uma casa de bom nível na Holanda. No pico do movimento, uma onda de defaults dos compradores provocou o estouro da bolha e a bela tulipa voltou ao preço... de uma tulipa.


2. A bolha do níquel  -Em 1969, uma mineradora descobriu uma vasta reserva de níquel no oeste da Austrália. As projeções, cada vez mais otimistas, sobre o volume destas reservas elevou o preço da ação da empresa de $1 até a máxima de $280 em fevereiro de 1970. No final daquele ano, o mercado passou a “ver” racionalmente os números e a ação recuou para $39. A empresa faliu em 1976.


3. A bolha da Internet - O crescimento do uso de computador pessoal nos anos 90 acelerou a indústria de informática em todo mundo. Os EUA concentram seus esforços na produção de softwares e suas companhias despertavam o sentimento que qualquer uma delas viria a ser a próxima Microsoft. Nenhum investidor queria perder o bonde e entre 1996 e 2000, o NASDAQ subiu dos 600 pontos para mais de 5 mil pontos. No começo de 2000, a realidade prevaleceu e o índice perdeu mais de dois terços de seu valor e, hoje perto dos 2.400 pontos, ainda não se recuperou do tombo.


Decisões Financeiras

Decisões financeiras decorrem do cálculo realizado por cada um, a partir de seu comportamento e posição social, sobre suas necessidades, possibilidades e “sentimentos” decorrentes da sua vivência da realidade. Os meios de comunicação, entre outros, oferecem informações, análises e narrativas sobre o estado da economia e dos negócios e das perspectivas para o futuro, e também exercem influência sobre as decisões.


Como foi possível que a escalada especulativa da “bolha imobiliária” dos EUA não tivesse sido percebida antes, apesar do intenso monitoramento do mercado? Quais interesses e mecanismos “cegam” os agentes durante a formação das “bolhas”?


A prevenção da formação de bolhas não é uma tarefa trivial nem consenso fácil no mercado ou nos meios acadêmicos. O Contraponto sugere apenas alguns aspectos e mecanismos que, talvez, contribuiriam para a “cegueira situacional” que as antecede.


Fundamentos econômicos e comportamento


Agrupamos os variados fatores que provavelmente influenciam a tomada de decisões financeiras em blocos.


Necessidades: O governo, as empresas e os indivíduos têm necessidades sociais, econômicas e financeiras próprias, tais como:


Individuos: Cidadania, Segurança e justiça, Estabilidade, Trabalho, Poder aquisitivo e renda, Acesso aos bens, Poupança, Acesso ao crédito, entre outras.Fundamentos econômicos: aspectos macroeconômicos que são considerados das decisões, por exemplo: nível de investimento, taxa de crescimento econômico, carga tributária, situação fiscal, salários, rendas e lucros, nível de poupança, taxa de inflação, taxa de juros, trocas externas, nível do câmbio, volume e qualidade do crédito, regulação, entre outros.


Governos: Estabilidade política e macroeconômica, Governabilidade, Equilíbrio Fiscal (Déficit, dívida e crédito), Regulação, entre outras. Para o Estado: Soberania - um governo, um povo, um território,e Segurança e integração e Controle social.
 
Empresas: Ambiente de negócios, Lucro e acumulação, Estabilidade, Liberdade, Acesso a Mercados, Crescimento, Suprimentos confiáveis, Recursos Humanos qualificados, Acesso a crédito, entre outras.


Comportamento: Cada pessoa possui um conjunto de características e comportamentos que influenciam a forma como adotam suas decisões financeiras, tais como: racionalidade - emoção, parcimônia – impulsividade, desapego – ganância, arrojo – timidez, coragem – medo, solidariedade – egoísmo, paciência – ansiedade, entre outros. 


“Sentimentos”: corresponderiam ao “estado de espírito” desenvolvido pelos indivíduos em suas experiências sociais e financeiras em função das suas expectativas, cultura, crenças, valores, antecedentes, conhecimentos e informações, entre outros. Poderiam exemplificá-los: otimismo – pessimismo, realização – frustração, alegria – tristeza, agitação – depressão, segurança – insegurança e admiração – inveja.


O mercado oscila entre comportamentos extremos: Euforia – Pânico. Se a percepção sobre os fundamentos econômicos é boa e os sentimentos forem, por exemplo, de otimismo e segurança, o mercado estará mais próximo de um comportamento eufórico.


A Bolha da Internet, da euforia ao pânico


Em um mercado imperfeito, algumas decisões apenas aparentam racionalidade. No caso da bolha da Internet a percepção da realidade talvez tenha sido turvada por “sentimentos”, entre outros: de ganância despertada pelas noticias sobre pessoas que, da noite para o dia, ficaram milionárias, de otimismo moldado pelas projeções de polpudos ganhos no futuro e da inveja, pois ninguém queria “perder o bonde”. 


Naquele ambiente eufórico, os gestores financeiros seguiram o “consenso” apostando em uma única direção. Paradoxalmente, aqueles que não quiseram acompanhar o mercado por julgarem não haver fundamento para aquela valorização toda, perderam aqueles clientes que queriam os mais elevados ganhos possíveis no curto prazo e que haviam perdido sensibilidade ao risco.


Neste tipo de situação, seria a prudência um sinônimo de falência? No mercado, ninguém pode lutar contra o “consenso do mercado”?


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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Os preços no Brasil

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Contraponto 6 - Entre os mais elevados do mundo?!

Segundo o The Economist, o Big Mac no Brasil é o 3º mais caro do mundo! Bem, o que isto poderia significar? Será que comparações deste tipo são de alguma utilidade?

Medir a prosperidade material através do PIB expresso em uma dada moeda não é suficiente para estabelecer diferenças entre países em termos de padrão de vida ou de preços. Se a cotação do Real se aprecia em relação ao dólar americano, o PIB brasileiro em dólares sobe, mas não significa necessariamente ter havido um aumento real da riqueza no Brasil.

Os economistas desenvolveram o método conhecido por Paridade do Poder de Compra (PPC) utilizado para comparar o poder aquisitivo entre dois ou mais países. Ele mede quanto uma determinada moeda, em termos internacionais, pode comprar. Ele também correlaciona o poder aquisitivo das pessoas com o custo de vida local.

Quando a moeda de referência, como é o caso do dólar americano, valoriza-se em relação a outras moedas, normalmente os preços dos ativos e das commodities desvalorizam-se em relação a ela. O Real foi das moedas que mais se valorizou nos últimos anos e isto deveria representar um efetivo aumento do seu poder compra no Brasil e não o contrário, porém, parece haver algo fora de lugar no caso da moeda brasileira.

O Real forte é uma distorção?

No Brasil, apesar dos elevados encargos sociais e trabalhistas, os salários e boa parte dos insumos, que inclusive exportamos, têm custos inferiores aos praticados na maioria dos países (listados no último Contraponto) pesquisados pelo The Economist. Então, como é possível que o Big Mac brasileiro seja o 3º mais caro do mundo ou custar quase 40% a mais que nos EUA?

A valorização sistemática do Real facilita a importação que, em tese, poderia ajudar a conter os preços por aqui. A força do Real pode ser mais bem observada nas viagens ao Chile, Argentina, EUA, México e Canadá, entre outros. Por lá, tudo está “muito barato” e irresistível: roupas, eletrônicos, ferramentas, perfumes, medicamentos, entre um mar de coisas. Até mesmo no caso do turismo e da gastronomia, os preços no Brasil estão caríssimos.

O “Preço dos juros” é o mais famoso dos preços altos - com ele detemos o recorde mundial. Ele é o alvo de reclamações ruidosas por parte da população ou dos veículos de comunicação, mas os outros preços altos praticados no Brasil curiosamente não são.

Para muitos, a elevada carga tributária é a maior “culpada” por esta situação, mas será ela explica tudo? Podemos ver que ela apesar de elevada, está na média mundial. O correto seria analisá-la do ponto de vista do seu baixo retorno.

Para explicar os preços no Brasil superiores em 50%, 200% e até mais de 500%, seria adequado buscar outros fatores, como: alta concentração e pouca concorrência em áreas chave da economia, presença estatal em setores importantes na formação de custos, burocracia lenta e custosa, falta de recursos humanos qualificados, infraestrutura deficiente, baixo nível de poupança interna e de investimentos e as questões culturais, entre outros.

Neste contexto, cabe uma pergunta: será que o Real é forte mesmo ou está “muito apreciado” em relação a outras moedas? Se este for o caso, qual seriam as conseqüências no médio e longo prazo sobre a nossa indústria, balança de pagamentos e preços?

Fausto Morey

Consulte o Google – Pesquisa realizada pelo autor com a chave "mais caro no Brasil".
Alguns preços mais caros no Brasil...

Jan/09 Carros no Brasil custam bem mais caro que no exterior. http://www.g1.globo.com/
Jan/09 Passagem para o exterior custa 66% mais caro no Brasil. http://www.sistemaodia.com/
Mar/09 Uso do celular é mais caro no Brasil do que nos outros países que fazem parte do levantamento. http://www.g1.globo.com/
Mai/09 Deputado sai mais caro no Brasil do que no 1º mundo. http://www.representantebrasil.com.br/
Out/09 Windows 7 será mais caro no Brasil - Estação Windows. http://www.info.abril.com.br/
Jan/10 Combustível é mais caro no Brasil do que nos países vizinhos e EUA. www.conteudoclippingmp.planejamento.gov.br
Jan/10 Laptop educacional é mais caro no Brasil. www.afarias.blog.br
Mar/10 Made in Brazil Comparando com o México, gadgets no Brasil são bem caros. http://www.gizmodo.com.br/
Mar/ 28 Preço pesquisado no site do Waltmart no dia 28 de março para o Irrigador Oral Waterpik© no: Brasil - R$ 499 e nos EUA - R$ 80 (US$ 48) - Observação: Nas duas situações, o produto foi importado da China.

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O ajuste americano após a crise

Contraponto 5 - As contas públicas, o calcanhar de Aquiles

Em janeiro de 2008, O United States Government Accountability Office - GAO apresentou ao senado americano o documento “Long-Term Fiscal Outlook - Action Is Needed to Avoid the Possibility of a Serious Economic Disruption in the Future”, afirmando que, sem a adoção de um profundo pacote de ajustes, os EUA enfrentariam uma espiral de crescimento dos déficits públicos motivados principalmente pelos desajustes do sistema de saúde pública.

Em abril de 2008, uma versão revisada do relatório previa que em 30 anos, o déficit público americano poderia situar-se na faixa de 6% e 15% do PIB ao ano situação que, do ponto de vista do GAO, seria insustentável. O mesmo relatório previa que em 2008 o déficit público americano ficaria abaixo dos 4% do PIB. Ambos os documentos foram publicados antes da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. De lá para cá, a situação agravou-se consideravelmente, pois o enfrentamento da crise bancária e a perda de arrecadação advinda do aprofundamento da recessão americana elevaram o déficit público corrente para 11% do PIB.

Somente no mês passado, o déficit público dos EUA atingiu inimagináveis US$ 221 bilhões, o maior da história para um único mês. Comparativamente, o pico de dívida externa brasileira total atingiu algo próximo a este valor...

Estoque da dívida pública

Em função do crescente desequilíbrio das contas, o estoque de dívida pública americana cresceu de forma contínua desde 1999. Após 2003, o ritmo acelerou-se e o montante mais que dobrou, podendo atingir US$ 13.4 trilhões em setembro de 2010, o que representará mais de 91% do PIB.

Conforme abordamos no Contraponto nº1, o problema americano não é isolado, porém os países têm conseguido, até o momento, vender seus títulos para bancos, investidores e governos. O Brasil detém hoje mais de US$ 180 bilhões. A China, ao lado do Japão, é o maior credor, com mais de US$ 800 bilhões, mas vem reduzindo a sua exposição aos títulos americanos.

A redução do déficit público e do estoque da dívida não é tarefa fácil, há obstáculos políticos significativos. Os EUA terão que realizar reformas profundas e polêmicas em muitos programas governamentais, tais como no sistema de saúde, que hoje consome mais de US$ 2.2 trilhões ao ano, nos subsídios agrícolas, na NASA, nos gastos militares, e, eventualmente, aumentar impostos!

As agências de risco começam discretamente a comentar sobre a gravidade da situação e sobre um eventual rebaixamento da nota de crédito, em especial, dos títulos dos EUA e da Inglaterra.

O dólar é a moeda do mundo e o EURO, a moeda aspirante, também está sendo contestada em função dos crescentes déficits orçamentários verificados na zona do EURO.

Quem tem dinheiro e disposição para financiar os déficits públicos, com que taxa de juros e por quanto tempo? O que será das outras moedas do mundo?

Fausto Morey
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