quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Contraponto 14. Quando os números perdem o significado

São Paulo – Nº 14, 10 de julho de 2010


Trilhões e bilhões: o que de fato significam números desta ordem?


Quando alguém diz que uma estrela está a um ano-luz de distância da terra, intuímos que é muito longe, mas não temos sensibilidade para perceber quão longe ela está de fato.
Em maio de 1972, Eduardo Varela ficou conhecido como “Dudu da Loteca” ao ganhar um prêmio de 11,6 milhões de cruzeiros. A passagem do tempo faz com que valores do passado percam significado, então é útil se utilizar de uma “régua” para entendê-los e tratá-los.

O que o “Dudu” poderia comprar com aquela dinheirama toda? Em maio de 1972 o salário mínimo era Cr$ 268,80, então ele ganhou 43.155 salários mínimos, ou perto de R$ 22 milhões hoje, assim fica fácil entender o real valor daquele prêmio...



Tabela 1. Tabela de referência de valores - “réguas”



Item
Valor do item
em R$
Valor equivalente a aproximadamente
Automóvel VW Novo Gol 1.0 flex
30.880

Trinta mil reais
61
Salários mínimos
Valor de mercado da Petrobras
256.675.359.240

Duzentos e cinqüenta e seis bilhões de reais
8.312.026
de
Carros “novo Gol”
503.285.018 de
Salários mínimos
Valor de mercado das 60 empresas do Índice Bovespa
1.599.801.983.910

Um trilhão e seiscentos bilhões de reais
6
Empresas Petrobras
51.807.059
de
Carros “novo Gol”
3.136.866.635 de
Salários mínimos





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Contraponto 13. Crescimento econômico da China (RPC)



São Paulo – Nº 13, 29 de junho de 2010


Uma ou duas diferenças entre o crescimento econômico na China e no Brasil 

Jim O'Neill, economista do Goldman Sachs, cunhou em 2001 a sigla BRIC para designar o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China. Segundo O'Neill, o que os tornaria um grupo com identidade comum seria principalmente o fato deles serem países grandes e emergentes, com “altas taxas de crescimento” e participação crescente no PIB global.Um olhar atento, no entanto, revela que as diferenças entre eles são substancias e para ilustrá-las trouxemos alguns dados sobre o Brasil e a China e de seus modelos de crescimento.

População

A China abriga um quinto da população mundial e 56 diferentes etnias. Sua extensão territorial é semelhante à brasileira, mas a população é quase 7 vezes maior. Ao contrário do Brasil, a China é um país rural, mas, sua população urbana de 540 milhões de pessoas é 3,5 vezes maior que a nossa.... 


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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Contraponto 12. A crise americana: um breve resumo sobre o estágio atual da recuperação

São Paulo – Nº 12, 8 de junho de 2010


Os EUA estão saindo da recessão e já se projeta um crescimento de 3% do PIB para 2010. Vários aspectos favorecem uma retomada mais vigorosa da economia dos EUA, tais como: moeda, bom ambiente de negócios, flexibilidade, desenvolvimento tecnológico consolidado, abundante fluxo de capitais e a possível retomada do consumo com o início da redução do desemprego, entre outros.


Porém, os problemas estruturais da economia americana são profundos o suficiente para colocarem uma dúvida plausível sobre a viabilidade de uma recuperação rápida...

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Contraponto 11. Paraísos fiscais: parte da solução da crise das dívidas públicas pelo mundo?

São Paulo – Nº 11, 28 de maio de 2010


Imaginemos que uma corporação abra uma "offshore company" em um “paraíso fiscal” (tabela 2), transferindo para lá os direitos de patente de seus produtos. A partir deste momento, quando uma unidade realizar qualquer venda, receberá uma fatura de royalties da “offshore”. 

Como esta despesa é um custo de produção, ela reduz o lucro e os impostos devidos na unidade. Em contrapartida, a “offshore” pagará um imposto reduzido ou imposto nenhum...




Tabela 2.
Instrução normativa 188 da receita federal

Em de agosto de 2002, através da Instrução Normativa 188 a Receita Federal divulgou os 53 locais classificados como "paraísos fiscais".
A Receita considera "paraísos fiscais" (com tributação favorecida) países ou dependências que tributam a renda com alíquota inferior a 20% ou o país cuja legislação protege o sigilo relativo à composição societária das empresas. Verifique alguns nomes a seguir:
·     Antígua e Barbuda
·     Antilhas Holandesas
·     Aruba
·     Comunidade das Bahamas
·     Bahrein
·     Ilhas do Canal (Alderney, Guernsey, Jersey e Sark)
·     Ilhas Cayman
·     Cingapura
·     Emirados Árabes Unidos
·     Líbano, e
·     Luxemburgo (item XXVIII) no que respeita às sociedades holding regidas, na legislação luxemburguesa, pela Lei de 31 de julho de 1929;

Fonte: Http://www.receita.fazenda.gov.br/Imprensa/Notas/2002/agosto/09082002a.htm


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Contraponto 10. O que está acontecendo com nossa dívida pública?

São Paulo – Nº 10, 17 de maio de 2010


Quando examinamos a situação fiscal dos países no velho continente, a sensação de “já termos visto este filme” é inevitável. Apesar da narrativa tranqüilizadora das autoridades brasileiras, o que está ocorrendo de fato com nossas contas públicas?



Bem, o Banco Central brasileiro modificou em 2008 o cálculo e o formato de apresentação do balanço da dívida pública interna e externa e, com base na nova metodologia, recalculou toda a série histórica. O objetivo aqui não é fazer a discussão sobre estas modificações nem sobre eventuais polêmicas dela decorrentes, mas, analisar a trajetória da dívida a partir da crise de 2008.



Os dados do Banco Central mostram que a dívida líquida do setor público que em dezembro de 2008 era de R$ 1.15 trilhões (38,4% do PIB), atingiu R$ 1.36 trilhões em março de 2010 (42,4% do PIB) - elevação de 4 pontos percentuais. Já a dívida bruta do governo geral[1], saltou de R$ 1.74 trilhões (57,9% do PIB) em dezembro de 2008 para R$ 1.94 trilhões (60,4% do PIB) em março de 2010, um crescimento de 2,5 p.p. no período.



[1] Abrange o Governo Federal, Governos Estaduais e Municipais, mas exclui o Banco Central e as empresas estatais.



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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Bolhas, superbolhas e megabolhas Parte 3 - final

Contraponto 9 - Estou convencido, eu acredito que, minha crença é...


Para a religião, crença é sinônimo de fé. Para a filosofia a crença é um estado mental sobre alguma coisa que pode ou não ser verdadeira. A crença é a atitude que admite uma hipótese como sendo verdadeira, sem a necessidade da certeza - acredita-se por convicção, fé, ou por idéias.




Platão, iniciador da tradição epistemológica[1], opôs a crença ou opinião ao conceito de conhecimento. A crença em alguma coisa não a torna verdadeira, mas afeta à tomada de decisão. A tabela 1 mostra fatos recentes da vida econômica brasileira e os relaciona a algumas crenças compartilhadas por muitos.




Tabela1. Fatos, crenças e conhecimento
Fatos
Crenças
Valorização do Real
- Trata-se de um fenômeno inevitável
- Ajuda a reduzir a dívida pública federal
- Beneficia quem depende da matéria-prima importada
- O acesso às máquinas favorece a modernização da indústria
A indústria nacional poderá competir desde que melhore sua produtividade
- Não se deve intervir no câmbio, pois terá efeitos desastrosos
- Ajuda a segurar a inflação
Declínio dos superávits comerciais no Brasil
- Decorre da contração do mercado externo em função da crise de 2008
O mercado interno garante uma saída mais rápida da crise
- As commodities subirão de preços, garantindo superávits crescentes no futuro
Aprofundamento do déficit em transações correntes
- Serão plenamente cobertos pelos ingressos de capital
- A situação brasileira não é uma situação de pré-crise
- Não há problema, pois o Brasil tem reservas superiores a US$ 250 bilhões
- Se a importação é de bens de capital, não há mal algum
- A balança de serviços no Brasil mudou: antigamente era pagamento de juros hoje, remessa de lucros
- O déficit tem outro perfil em relação aos déficits do passado
Preços dos ativos subindo acima da inflação e do crescimento real do PIB
- O preço dos imóveis estava muito deprimido
- O preço de qualquer ativo, em um mesmo período, é tal que sua taxa de retorno é igual à taxa de juros ou, então, haverá oportunidades para arbitragem
Baixa formação bruta de capital / baixa poupança interna
Os investimentos externos diretos complementarão a poupança interna
A ampliação dos gastos de custeio do setor público ajudou-nos a sair da crise, apesar de ter reduzido a poupança pública
Crescimento do consumo a taxas superiores às da produção
Com a queda dos juros e ampliação do crédito o povo pode consumir mais
A expansão do crédito é um fenômeno recente na economia brasileira
Recente retomada da aceleração da inflação
- Decorre de aspectos sazonais
Decorre de um ajuste de preços relativos
Está sobre controle e deverá declinar nos próximos meses
A elevação da taxa SELIC nos próximos meses fará com que a taxa de inflação volte para o centro da média

Nas decisões econômicas, as crenças podem ser baseadas em fatos reais específicos, mas dada à complexidade do sistema econômico, o conhecimento pode não ser suficiente para determinar se as crenças são verdadeiras e justificadas. Como se dá o diálogo entre as crenças, a formação de expectativas no mercado e a realidade é tema complexo. 


A Crise da Grécia, berço de novas crenças?

O pacote de US$ 146 bilhões oferecido à Grécia é o maior da história e pressupõem a adoção de um plano de austeridade extremamente rigoroso, mas em função dos antecedentes históricos, há temores se a Grécia conseguirá cumpri-lo.

Sobre o acordo, Tony Morriss do ANZ Bank disse: "Há pouca convicção de que essa seja uma solução rápida. A sustentabilidade de longo prazo desse nível de austeridade deve ser aberta a questionamento". Já um operador europeu de câmbio afirmou “Não parece que o mercado está convencido ainda. É isso o que o euro está dizendo (com queda de cotação). O acordo ainda tem que passar pelos parlamentares e isso vai ser difícil".

Em 2008, estudos dos economistas Reinhart e Rogoff davam conta que após uma grave crise financeira, a dívida e o déficit público explodem, comprometendo o crescimento econômico por anos.

A situação da Grécia é tão grave quanto para os seus financiadores. Até 2011, praticamente todos os países da Europa terão elevadíssimas taxas de dívida pública bruta sobre o PIB: Reino Unido 86%, França 89%, Itália e Grécia 120% e a poderosa Alemanha com 84%. Os EUA chegarão a 94%, e creiam o Japão superará os 210%. O grave é que nestes países o déficit público tem girado na média a taxas anuais de 8% do PIB, portanto nos próximos anos, as dívidas crescerão assim como a desconfiança.

Há uma megabolha de dívidas pelo mundo?

Não é possível afirmar que sim, mas a situação fiscal pelo mundo parece ser mais séria do que a contida nas crenças atuais.

O Brasil teve um déficit de R$ 216 milhões, o pior para um mês de março desde 1997, resultantes de despesas em alta e dos efeitos da inflação sobre a dívida, porém até agora, graças a um comportamento responsável que perdurou pelo menos até o ano de 2008 e principalmente graças à lei de responsabilidade fiscal, nossa dívida pública bruta é hoje um pouco superior aos 62% do PIB, porém, o alerta é que ela está em elevação.

De fato, este déficit ainda não modificou as crenças vigentes nos mercados, tais como: a situação fiscal do Brasil é muito melhor hoje; temos US$ 250 Bi de reservas; a dívida pública está sobre controle; a atual elevação do custeio será coberta pelas receitas advindas do crescimento futuro; as isenções fiscais foram responsáveis pela redução do superávit primário e por sairmos fortalecidos desta crise; o crescimento econômico está garantido pela entrada de capital externo para o Pré-sal, para a copa do mundo e para as olimpíadas...

De qualquer maneira, parece saudável revermos nossas crenças toda vez que novos conhecimentos estiverem à disposição.


Devemos ficar atentos, afinal, como saber qual crença é a verdadeira e justificada?

Fausto Morey
Para receber o Contraponto 9 na integra solicite pelo email: Faustomorey@hotmail.com



[1] Epistemologia ou teoria do conhecimento é um ramo da filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Bolhas, superbolhas e megabolhas - parte 2

Contraponto 8 - Especulação, euforia e pânico


A palavra “bolha” está na ordem do dia. Ela será utilizada no Contraponto para designar a valorização rápida, continuada e expressiva de bens, ativos ou commodities, sem motivo real ou fundamento econômico sustentável.


O fenômeno das bolhas é complexo e decorre de uma combinação de fatores emocionais e comportamentais, de sentimentos individuais, da assimetria no acesso às informações, de aspectos macroeconômicos e das apostas feitas pelos jogadores no mercado, entre outros. Porém, a natureza dura da economia sempre acaba por desfazer as ilusões e os sonhos, restabelecendo dolorosamente a realidade.

Os Galbraith's [1]disseram que na bolha de 1929 (e de 2008) as empresas eram planejadas com base na crença de ser possível ganhar dinheiro fácil. A especulação excessiva, os recordes de venda e de preços das ações levaram o mercado à euforia, mas subitamente, “do nada”, a bolha estourou e o pânico se instalou.


Reinhart e Rogoff afirmam que “as grandes bolhas ocorrem em intervalos espaçados por anos ou até mesmo décadas, criando a ilusão que “desta vez é diferente”. Vários sinais precursores da crise imobiliária nos EUA foram emitidos por uma década, entre eles, a escalada sem precedentes dos preços dos imóveis e o declínio da poupança dos americanos de sua taxa média histórica de 9% do PIB em 1993 para zero no final de 2007.


Encontramos nas bolhas um pouco das características comuns e ordinárias dos “contos do vigário” e de seus tradicionais personagens: os espetaculares e respeitáveis trapaceiros como Bernard Madoff e Ken Lay, os descuidados que crêem em versões simplificadas da realidade, os inocentes esperançosos em obter ganho fácil e políticos e agentes públicos omissos ou coniventes.


A exuberância irracional


Hoje, alguns notáveis são responsabilizados pela crise de 2008, entre eles, o Sr. Alan Greenspan que teria propiciado a formação de bolhas como a da Internet e a do subprime por ter mantido os juros reais baixos demais quando era presidente do Federal Reserve – FED entre 1987 e 2006, e o ex-presidente Bill Clinton que estimulou a concessão de crédito imobiliário para a população pobre dos EUA através de hipotecas subprime.


Na verdade, a redução dos juros de longo prazo começou antes da posse do Sr. Greenspan, mas ele a intensificou ao longo de seus quase 20 anos de comando no FED. (Vide o gráfico 1). 

A concessão do crédito hipotecário subprime foi seguida pelo “empacotamento” e distribuição destes títulos no sistema bancário do mundo, resultando em um fluxo permanente de dinheiro novo à expansão imobiliária. Apesar do custo da construção civil ter ficado estável ou até mesmo caído, os preços médios dos imóveis quase dobraram entre o 2000 e 2007, O custo cai, mas o preço sobe, seria isto “uma nova paisagem financeira”...?


Será que há bolhas em gestação no Brasil?

Não é possível afirmar se há bolhas em gestação no Brasil, mas certos dados parecem estar “fora do eixo”. Dentre eles, citamos:

- Valorização do Real - queda da relação entre o cambio efetivo e salários médios nominais (vide gráfico 2);


- Declínio dos superávits comerciais e aprofundamento do déficit em transações correntes (tratado no Contraponto 4);

- Preços dos ativos subindo acima da inflação e do crescimento real do PIB;

- Baixa formação bruta de capital (investimentos) combinado com taxas de crescimento do consumo superiores às do crescimento da produção;

- Aceleração da inflação apesar da queda da taxa de câmbio.


Serão estes os indícios de uma nova e benéfica paisagem financeira ou ai tem?!




 [1] “1929 - A Grande Crise” de 1955 de John Kenneth Galbraith foi reeditado recente com uma introdução de James K. Galbraith sobre a crise de 2008-2009.



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