Para a religião, crença é sinônimo de fé. Para a filosofia a crença é um estado mental sobre alguma coisa que pode ou não ser verdadeira. A crença é a atitude que admite uma hipótese como sendo verdadeira, sem a necessidade da certeza - acredita-se por convicção, fé, ou por idéias.
Platão, iniciador da tradição epistemológica[1], opôs a crença ou opinião ao conceito de conhecimento. A crença em alguma coisa não a torna verdadeira, mas afeta à tomada de decisão. A tabela 1 mostra fatos recentes da vida econômica brasileira e os relaciona a algumas crenças compartilhadas por muitos.
Tabela1. Fatos, crenças e conhecimento
Fatos | Crenças |
Valorização do Real | - Trata-se de um fenômeno inevitável - Ajuda a reduzir a dívida pública federal - Beneficia quem depende da matéria-prima importada - O acesso às máquinas favorece a modernização da indústria - A indústria nacional poderá competir desde que melhore sua produtividade - Não se deve intervir no câmbio, pois terá efeitos desastrosos - Ajuda a segurar a inflação |
Declínio dos superávits comerciais no Brasil | - Decorre da contração do mercado externo em função da crise de 2008 - O mercado interno garante uma saída mais rápida da crise - As commodities subirão de preços, garantindo superávits crescentes no futuro |
Aprofundamento do déficit em transações correntes | - Serão plenamente cobertos pelos ingressos de capital - A situação brasileira não é uma situação de pré-crise - Não há problema, pois o Brasil tem reservas superiores a US$ 250 bilhões - Se a importação é de bens de capital, não há mal algum - A balança de serviços no Brasil mudou: antigamente era pagamento de juros hoje, remessa de lucros - O déficit tem outro perfil em relação aos déficits do passado |
Preços dos ativos subindo acima da inflação e do crescimento real do PIB | - O preço dos imóveis estava muito deprimido - O preço de qualquer ativo, em um mesmo período, é tal que sua taxa de retorno é igual à taxa de juros ou, então, haverá oportunidades para arbitragem |
Baixa formação bruta de capital / baixa poupança interna | - Os investimentos externos diretos complementarão a poupança interna - A ampliação dos gastos de custeio do setor público ajudou-nos a sair da crise, apesar de ter reduzido a poupança pública |
Crescimento do consumo a taxas superiores às da produção | - Com a queda dos juros e ampliação do crédito o povo pode consumir mais - A expansão do crédito é um fenômeno recente na economia brasileira |
Recente retomada da aceleração da inflação | - Decorre de aspectos sazonais - Decorre de um ajuste de preços relativos - Está sobre controle e deverá declinar nos próximos meses - A elevação da taxa SELIC nos próximos meses fará com que a taxa de inflação volte para o centro da média |
Nas decisões econômicas, as crenças podem ser baseadas em fatos reais específicos, mas dada à complexidade do sistema econômico, o conhecimento pode não ser suficiente para determinar se as crenças são verdadeiras e justificadas. Como se dá o diálogo entre as crenças, a formação de expectativas no mercado e a realidade é tema complexo.
A Crise da Grécia, berço de novas crenças?
O pacote de US$ 146 bilhões oferecido à Grécia é o maior da história e pressupõem a adoção de um plano de austeridade extremamente rigoroso, mas em função dos antecedentes históricos, há temores se a Grécia conseguirá cumpri-lo.
Sobre o acordo, Tony Morriss do ANZ Bank disse: "Há pouca convicção de que essa seja uma solução rápida. A sustentabilidade de longo prazo desse nível de austeridade deve ser aberta a questionamento". Já um operador europeu de câmbio afirmou “Não parece que o mercado está convencido ainda. É isso o que o euro está dizendo (com queda de cotação). O acordo ainda tem que passar pelos parlamentares e isso vai ser difícil".
Em 2008, estudos dos economistas Reinhart e Rogoff davam conta que após uma grave crise financeira, a dívida e o déficit público explodem, comprometendo o crescimento econômico por anos.
A situação da Grécia é tão grave quanto para os seus financiadores. Até 2011, praticamente todos os países da Europa terão elevadíssimas taxas de dívida pública bruta sobre o PIB: Reino Unido 86%, França 89%, Itália e Grécia 120% e a poderosa Alemanha com 84%. Os EUA chegarão a 94%, e creiam o Japão superará os 210%. O grave é que nestes países o déficit público tem girado na média a taxas anuais de 8% do PIB, portanto nos próximos anos, as dívidas crescerão assim como a desconfiança.
Há uma megabolha de dívidas pelo mundo?
Não é possível afirmar que sim, mas a situação fiscal pelo mundo parece ser mais séria do que a contida nas crenças atuais.
O Brasil teve um déficit de R$ 216 milhões, o pior para um mês de março desde 1997, resultantes de despesas em alta e dos efeitos da inflação sobre a dívida, porém até agora, graças a um comportamento responsável que perdurou pelo menos até o ano de 2008 e principalmente graças à lei de responsabilidade fiscal, nossa dívida pública bruta é hoje um pouco superior aos 62% do PIB, porém, o alerta é que ela está em elevação.
De fato, este déficit ainda não modificou as crenças vigentes nos mercados, tais como: a situação fiscal do Brasil é muito melhor hoje; temos US$ 250 Bi de reservas; a dívida pública está sobre controle; a atual elevação do custeio será coberta pelas receitas advindas do crescimento futuro; as isenções fiscais foram responsáveis pela redução do superávit primário e por sairmos fortalecidos desta crise; o crescimento econômico está garantido pela entrada de capital externo para o Pré-sal, para a copa do mundo e para as olimpíadas...
De qualquer maneira, parece saudável revermos nossas crenças toda vez que novos conhecimentos estiverem à disposição.
Fausto Morey
Para receber o Contraponto 9 na integra solicite pelo email: Faustomorey@hotmail.com
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[1] Epistemologia ou teoria do conhecimento é um ramo da filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento.


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