Contraponto 4. As transações correntes
O futuro da economia de um país depende, entre outros fatores, de investimentos, educação, conhecimento e inovação e do aumento da produtividade. Estes fatores propiciam um autêntico ganho de renda, o barateamento dos preços dos bens e serviços e a melhoria da competitividade externa do país.
O Real valorizado, a inflação bem comportada, a taxa de juros mais baixa das últimas décadas e uma oferta de crédito abundante e mais acessível, foram decisivos à elevação do padrão de vida para parcelas significativas da população.
Está tudo muito bem, as pessoas trabalham para, inclusive, terem acesso aos bens materiais que ajudam a produzir. Tudo certo, mas sempre há um “porém” para atrapalhar. O “porém” aqui é saber se as melhorias obtidas são sustentáveis.
Será que o Real ???
A partir de maio de 2000, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, as contas públicas brasileira melhoraram. Entre 2002 e 2008, aproveitando a pujança do comércio global, o Brasil mais que triplicou suas exportações e ampliou suas importações o que permitiu uma rápida modernização da sua indústria.
Com a melhora da imagem do país, acorreu um fluxo de capitais externos que, adicionados aos elevados saldos comerciais, produziram superávits nas transações correntes. Com estes recursos pagamos parte substancial da dívida externa e acumulamos reservas cambiais em níveis “nunca antes vistos”, um verdadeiro ciclo virtuoso.
Algo está fora da ordem?
As curvas do valor nominal do EURO, do US$ e, do aqui nominado, “Dólar Corrigido” (cotação do dólar antes da desvalorização cambial do início de 1999 corrigido pelo IGPM do período - linha azul). Parece haver uma correlação intrigante entre o valor relativo do “Dólar Corrigido” e o superávit nas transações correntes:
- No final de 2001, o EURO e o US$ estavam bem apreciados em relação ao “Dólar Corrigido” e apreciaram-se ainda mais até o início de 2005. A partir de 2002 e até 2007, o Brasil obteve superávits comerciais substanciais;
- Em 2007, o “Dólar Corrigido”, que no ano anterior havia superado o valor nominal do US$, superou também o do EURO. Em 2008, os saldos comerciais começaram a diminuir;
- Hoje, o “Dólar Corrigido” vale 20% mais que o Euro e 50% mais que o US$ nominal.
O Brasil saiu de um superávit em transações correntes de US$ 13,6 bilhões em 2006 para um déficit previsto pelo Banco Central para 2011 de mais de US$ 50 bilhões, nível bem superior ao que deflagrou a crise de 1999, a diferença é que hoje dispomos de reservas cambiais.
É possível verificar a redução de mais de 50% no saldo acumulado da balança comercial no ano considerado até a primeira semana de março de 2010, sobre igual período de 2009. Será que estamos diante de algum tipo de desajuste macroeconômico? O que acontecerá com o Real? Para muitos, um ano eleitoral poderia ser uma dica para o Governo “relaxar” na condução da economia. Será mesmo?
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sábado, 13 de março de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
O ajuste americano após a crise - Parte 2
Contraponto 3 - O ajuste no comércio externo dos EUA
O mercado tem depositado esperanças em uma recuperação rápida e vigorosa da economia americana, mas se isto ocorresse de fato, quais seriam as conseqüências? Parece conveniente, mas não exaustivo, analisar os impactos da crise de 2008 sobre o comércio externo dos EUA.
Importações: Em 2008, as importações americanas tiveram um aumento médio anual sobre 2007 da ordem de 7,5%. O fator isolado que mais contribuiu para o crescimento das importações americanas no período foi a alta do preço das commodities ocorrida entre 2007 e 2008. Onde as importações americanas tiveram um incremento substancial foi: na Venezuela de 3.3 para 4.2 bilhões de US$ ou 28,9%, Oriente Médio em geral de 6.4 para 9,2 bilhões de US$ ou 43,5% e a Arábia Saudita de 2,9 para 4,5 bilhões de US$ ou 53,7%.
O agravamento da crise no final de 2008 foi seguido por uma queda no preço das commodities. Em 2009 as importações americanas caíram 28% em valor. A redução ocorreu generalizadamente, porém, de forma assimétrica entre as regiões e os países. Os principais impactos da redução das compras americanas em 2009 podem ser vistos na tabela 1.
Exportações: Em 2008, as exportações americanas cresceram 12,2% sobre o nível de 2007. Não foi possível identificar o fator isolado que mais contribuiu para o crescimento das exportações, que foram mais expressivas para o Oriente Médio com um incremento de 50,9% e para o Brasil com 33,7% - tabela 3.
Em 2009, as exportações americanas sofreram uma redução de 20,7% sobre 2008. Ela ocorreu generalizada e simetricamente entre as regiões e os países. A simetria da queda talvez esteja relacionada ao fato de que mais de 90% das exportações americanas são de “produtos não agrícolas".
O déficit dos EUA é especialmente elevado com a Ásia e o Pacífico e continua elevadíssimo com a China, na média mais de 18 bilhões de US$ por mês, porém as exportações americanas para a China recuaram menos da metade da média geral.
A recessão global, o elevado desemprego e a queda da demanda interna nos EUA, resultaram na queda dos preços das commodities o que têm ajudado, até agora, o ajuste das contas externas dos EUA (vide a edição nº 2 do Contraponto). Será que a recuperação da economia global sem uma mudança significativa no modelo de produção e consumo traria um novo ciclo de elevação das commodities e do déficit externo americano?
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O mercado tem depositado esperanças em uma recuperação rápida e vigorosa da economia americana, mas se isto ocorresse de fato, quais seriam as conseqüências? Parece conveniente, mas não exaustivo, analisar os impactos da crise de 2008 sobre o comércio externo dos EUA.
Importações: Em 2008, as importações americanas tiveram um aumento médio anual sobre 2007 da ordem de 7,5%. O fator isolado que mais contribuiu para o crescimento das importações americanas no período foi a alta do preço das commodities ocorrida entre 2007 e 2008. Onde as importações americanas tiveram um incremento substancial foi: na Venezuela de 3.3 para 4.2 bilhões de US$ ou 28,9%, Oriente Médio em geral de 6.4 para 9,2 bilhões de US$ ou 43,5% e a Arábia Saudita de 2,9 para 4,5 bilhões de US$ ou 53,7%.
O agravamento da crise no final de 2008 foi seguido por uma queda no preço das commodities. Em 2009 as importações americanas caíram 28% em valor. A redução ocorreu generalizadamente, porém, de forma assimétrica entre as regiões e os países. Os principais impactos da redução das compras americanas em 2009 podem ser vistos na tabela 1.
Exportações: Em 2008, as exportações americanas cresceram 12,2% sobre o nível de 2007. Não foi possível identificar o fator isolado que mais contribuiu para o crescimento das exportações, que foram mais expressivas para o Oriente Médio com um incremento de 50,9% e para o Brasil com 33,7% - tabela 3.
Em 2009, as exportações americanas sofreram uma redução de 20,7% sobre 2008. Ela ocorreu generalizada e simetricamente entre as regiões e os países. A simetria da queda talvez esteja relacionada ao fato de que mais de 90% das exportações americanas são de “produtos não agrícolas".
O déficit dos EUA é especialmente elevado com a Ásia e o Pacífico e continua elevadíssimo com a China, na média mais de 18 bilhões de US$ por mês, porém as exportações americanas para a China recuaram menos da metade da média geral.
A recessão global, o elevado desemprego e a queda da demanda interna nos EUA, resultaram na queda dos preços das commodities o que têm ajudado, até agora, o ajuste das contas externas dos EUA (vide a edição nº 2 do Contraponto). Será que a recuperação da economia global sem uma mudança significativa no modelo de produção e consumo traria um novo ciclo de elevação das commodities e do déficit externo americano?
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O ajuste americano após a crise - Parte 1
Contraponto 2 - Um ajuste sem dó nem piedade...
O Japão é um país reconhecido como vanguarda na inovação tecnológica, pela qualidade de seus produtos e pelo alto nível de educação do seu povo. Na segunda metade do século XX, construiu a mais poderosa máquina de criar e acumular riquezas e tornou-se a segunda maior economia do mundo . Nos últimos 15 anos a economia japonesa perdeu brilho e dinamismo, apesar dos esforços empreendidos pelas autoridades.
Na Europa os países são, na sua maioria, membros de uma espécie de “paraíso do bem estar social”. Coletivamente formam a maior economia do mundo, exibem altos níveis educacionais e de qualidade de vida, além de uma extraordinária infraestrutura social - dos 25 países de mais elevado IDH no mundo, 17 estão na Europa. Nos últimos anos, com raras exceções, perderam progressivamente sua competitividade e o seu dinamismo econômico e, após a crise de 2008, viram a dívida pública crescer de forma acelerada, além de enfrentarem recessão e desemprego.
No final de 2007, os EUA apresentavam déficits gêmeos, ou seja, déficit público e nas contas externas. Com a crise financeira de 2008 o quadro deteriorou-se rapidamente:
“A situação americana não poderia ser pior. O país está em recessão, a maioria da população e das empresas está endividada, o déficit público e o estoque da dívida atingiram níveis alarmantes, a população não poupa absolutamente nada, os bancos e as empresas estão colhendo prejuízos. Apesar da recessão, o nível remanescente da atividade econômica e do consumo gera déficits externos próximos a 5% do PIB. Além disto, o sistema financeiro está paralisado e flertando com a insolvência, o desemprego tem crescido de forma profunda, muitos setores têm problema de gestão e de eficiência e somente sobrevivem à custa de subsídios ...”
A diferença entre as economias americanas, japonesa e européia pode estar na velocidade e na agilidade com que os EUA promovem os ajustes. Diante da necessidade, eles assimilam o golpe, realizam os prejuízos e recomeçam o jogo. Vejamos:
Mais de 7.2 milhões de empregos formais foram destruídos desde o início da crise em 2007 resultando em um ajuste nas contas externas, onde o déficit de quase 800 bilhões de dólares ao final de 2006 foi reduzido pela metade no final de 2009.
Haveria uma correlação entre o atual nível de desemprego e o ajuste externo nos EUA? Quais seriam as conseqüências da volta do pleno emprego por lá? Como outras nações lidariam com um ajuste econômico que resultasse em um desemprego desta magnitude?
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O Japão é um país reconhecido como vanguarda na inovação tecnológica, pela qualidade de seus produtos e pelo alto nível de educação do seu povo. Na segunda metade do século XX, construiu a mais poderosa máquina de criar e acumular riquezas e tornou-se a segunda maior economia do mundo . Nos últimos 15 anos a economia japonesa perdeu brilho e dinamismo, apesar dos esforços empreendidos pelas autoridades.
Na Europa os países são, na sua maioria, membros de uma espécie de “paraíso do bem estar social”. Coletivamente formam a maior economia do mundo, exibem altos níveis educacionais e de qualidade de vida, além de uma extraordinária infraestrutura social - dos 25 países de mais elevado IDH no mundo, 17 estão na Europa. Nos últimos anos, com raras exceções, perderam progressivamente sua competitividade e o seu dinamismo econômico e, após a crise de 2008, viram a dívida pública crescer de forma acelerada, além de enfrentarem recessão e desemprego.
No final de 2007, os EUA apresentavam déficits gêmeos, ou seja, déficit público e nas contas externas. Com a crise financeira de 2008 o quadro deteriorou-se rapidamente:
“A situação americana não poderia ser pior. O país está em recessão, a maioria da população e das empresas está endividada, o déficit público e o estoque da dívida atingiram níveis alarmantes, a população não poupa absolutamente nada, os bancos e as empresas estão colhendo prejuízos. Apesar da recessão, o nível remanescente da atividade econômica e do consumo gera déficits externos próximos a 5% do PIB. Além disto, o sistema financeiro está paralisado e flertando com a insolvência, o desemprego tem crescido de forma profunda, muitos setores têm problema de gestão e de eficiência e somente sobrevivem à custa de subsídios ...”
A diferença entre as economias americanas, japonesa e européia pode estar na velocidade e na agilidade com que os EUA promovem os ajustes. Diante da necessidade, eles assimilam o golpe, realizam os prejuízos e recomeçam o jogo. Vejamos:
Mais de 7.2 milhões de empregos formais foram destruídos desde o início da crise em 2007 resultando em um ajuste nas contas externas, onde o déficit de quase 800 bilhões de dólares ao final de 2006 foi reduzido pela metade no final de 2009.
Haveria uma correlação entre o atual nível de desemprego e o ajuste externo nos EUA? Quais seriam as conseqüências da volta do pleno emprego por lá? Como outras nações lidariam com um ajuste econômico que resultasse em um desemprego desta magnitude?
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“Capitalismo” ou o que?
Contraponto 1 - O sistema capitalista está ficando prá lá de esquisito...
Se o risco sistêmico paira sobre o sistema financeiro em função da quebra de um banco que cometeu todo tipo de barbaridade estratégica ou operacional, então o governo corre para socorrê-lo. Como conseqüência, o Estado aumenta a sua dívida pública e acaba recorrendo aos próprios Bancos para colocação de seus títulos, logicamente mediante o pagamento de comissões ou prêmios.
Se uma nação é governada por dirigentes irresponsáveis e perdulários, que gastam e se endividam alegremente até colocar o Estado sob risco de um default, então outros governos correm em seu socorro. Como conseqüência, outros Estados aumentam suas dívidas públicas (vide gráfico) e acabam recorrendo aos próprios Bancos para colocação de seus títulos, logicamente mediante o pagamento de comissões ou prêmios...
No recente episódio da Grécia a simples possibilidade da solução do débito daquele país se dar via mercado levou a uma queda generalizada das cotações dos ativos no mundo todo. Porém, assim que correu a noticia que a Alemanha estaria estudando um plano de socorro, imediatamente o mercado considerou o problema resolvido e todos correram para aproveitar as boas oportunidades para comprarem os ativos que haviam ficado “baratos”.
O fato de, eventualmente, ter ocorrido uma maquiagem na contabilidade grega não foi um alerta suficientemente forte nem mesmo para despertar curiosidade sobre a situação de outros devedores. Estamos perdendo a sensibilidade aos riscos, a noção de valor e a crença nos fundamentos macro-econômicos e assumindo, consciente ou inconscientemente e direta ou indiretamente, cada vez riscos mais elevados.
Fica combinado que aparentemente foi inventado o "capitalismo sem riscos", onde nem o FMI tem espaço. Adicionalmente parece que ficou estabelecido que os preços dos ativos e o ritmo da economia têm uma única direção: para cima, afinal é o “capitalismo” ou o que?
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Se o risco sistêmico paira sobre o sistema financeiro em função da quebra de um banco que cometeu todo tipo de barbaridade estratégica ou operacional, então o governo corre para socorrê-lo. Como conseqüência, o Estado aumenta a sua dívida pública e acaba recorrendo aos próprios Bancos para colocação de seus títulos, logicamente mediante o pagamento de comissões ou prêmios.
Se uma nação é governada por dirigentes irresponsáveis e perdulários, que gastam e se endividam alegremente até colocar o Estado sob risco de um default, então outros governos correm em seu socorro. Como conseqüência, outros Estados aumentam suas dívidas públicas (vide gráfico) e acabam recorrendo aos próprios Bancos para colocação de seus títulos, logicamente mediante o pagamento de comissões ou prêmios...
No recente episódio da Grécia a simples possibilidade da solução do débito daquele país se dar via mercado levou a uma queda generalizada das cotações dos ativos no mundo todo. Porém, assim que correu a noticia que a Alemanha estaria estudando um plano de socorro, imediatamente o mercado considerou o problema resolvido e todos correram para aproveitar as boas oportunidades para comprarem os ativos que haviam ficado “baratos”.
O fato de, eventualmente, ter ocorrido uma maquiagem na contabilidade grega não foi um alerta suficientemente forte nem mesmo para despertar curiosidade sobre a situação de outros devedores. Estamos perdendo a sensibilidade aos riscos, a noção de valor e a crença nos fundamentos macro-econômicos e assumindo, consciente ou inconscientemente e direta ou indiretamente, cada vez riscos mais elevados.
Fica combinado que aparentemente foi inventado o "capitalismo sem riscos", onde nem o FMI tem espaço. Adicionalmente parece que ficou estabelecido que os preços dos ativos e o ritmo da economia têm uma única direção: para cima, afinal é o “capitalismo” ou o que?
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