segunda-feira, 31 de maio de 2010

Bolhas, superbolhas e megabolhas Parte 3 - final

Contraponto 9 - Estou convencido, eu acredito que, minha crença é...


Para a religião, crença é sinônimo de fé. Para a filosofia a crença é um estado mental sobre alguma coisa que pode ou não ser verdadeira. A crença é a atitude que admite uma hipótese como sendo verdadeira, sem a necessidade da certeza - acredita-se por convicção, fé, ou por idéias.




Platão, iniciador da tradição epistemológica[1], opôs a crença ou opinião ao conceito de conhecimento. A crença em alguma coisa não a torna verdadeira, mas afeta à tomada de decisão. A tabela 1 mostra fatos recentes da vida econômica brasileira e os relaciona a algumas crenças compartilhadas por muitos.




Tabela1. Fatos, crenças e conhecimento
Fatos
Crenças
Valorização do Real
- Trata-se de um fenômeno inevitável
- Ajuda a reduzir a dívida pública federal
- Beneficia quem depende da matéria-prima importada
- O acesso às máquinas favorece a modernização da indústria
A indústria nacional poderá competir desde que melhore sua produtividade
- Não se deve intervir no câmbio, pois terá efeitos desastrosos
- Ajuda a segurar a inflação
Declínio dos superávits comerciais no Brasil
- Decorre da contração do mercado externo em função da crise de 2008
O mercado interno garante uma saída mais rápida da crise
- As commodities subirão de preços, garantindo superávits crescentes no futuro
Aprofundamento do déficit em transações correntes
- Serão plenamente cobertos pelos ingressos de capital
- A situação brasileira não é uma situação de pré-crise
- Não há problema, pois o Brasil tem reservas superiores a US$ 250 bilhões
- Se a importação é de bens de capital, não há mal algum
- A balança de serviços no Brasil mudou: antigamente era pagamento de juros hoje, remessa de lucros
- O déficit tem outro perfil em relação aos déficits do passado
Preços dos ativos subindo acima da inflação e do crescimento real do PIB
- O preço dos imóveis estava muito deprimido
- O preço de qualquer ativo, em um mesmo período, é tal que sua taxa de retorno é igual à taxa de juros ou, então, haverá oportunidades para arbitragem
Baixa formação bruta de capital / baixa poupança interna
Os investimentos externos diretos complementarão a poupança interna
A ampliação dos gastos de custeio do setor público ajudou-nos a sair da crise, apesar de ter reduzido a poupança pública
Crescimento do consumo a taxas superiores às da produção
Com a queda dos juros e ampliação do crédito o povo pode consumir mais
A expansão do crédito é um fenômeno recente na economia brasileira
Recente retomada da aceleração da inflação
- Decorre de aspectos sazonais
Decorre de um ajuste de preços relativos
Está sobre controle e deverá declinar nos próximos meses
A elevação da taxa SELIC nos próximos meses fará com que a taxa de inflação volte para o centro da média

Nas decisões econômicas, as crenças podem ser baseadas em fatos reais específicos, mas dada à complexidade do sistema econômico, o conhecimento pode não ser suficiente para determinar se as crenças são verdadeiras e justificadas. Como se dá o diálogo entre as crenças, a formação de expectativas no mercado e a realidade é tema complexo. 


A Crise da Grécia, berço de novas crenças?

O pacote de US$ 146 bilhões oferecido à Grécia é o maior da história e pressupõem a adoção de um plano de austeridade extremamente rigoroso, mas em função dos antecedentes históricos, há temores se a Grécia conseguirá cumpri-lo.

Sobre o acordo, Tony Morriss do ANZ Bank disse: "Há pouca convicção de que essa seja uma solução rápida. A sustentabilidade de longo prazo desse nível de austeridade deve ser aberta a questionamento". Já um operador europeu de câmbio afirmou “Não parece que o mercado está convencido ainda. É isso o que o euro está dizendo (com queda de cotação). O acordo ainda tem que passar pelos parlamentares e isso vai ser difícil".

Em 2008, estudos dos economistas Reinhart e Rogoff davam conta que após uma grave crise financeira, a dívida e o déficit público explodem, comprometendo o crescimento econômico por anos.

A situação da Grécia é tão grave quanto para os seus financiadores. Até 2011, praticamente todos os países da Europa terão elevadíssimas taxas de dívida pública bruta sobre o PIB: Reino Unido 86%, França 89%, Itália e Grécia 120% e a poderosa Alemanha com 84%. Os EUA chegarão a 94%, e creiam o Japão superará os 210%. O grave é que nestes países o déficit público tem girado na média a taxas anuais de 8% do PIB, portanto nos próximos anos, as dívidas crescerão assim como a desconfiança.

Há uma megabolha de dívidas pelo mundo?

Não é possível afirmar que sim, mas a situação fiscal pelo mundo parece ser mais séria do que a contida nas crenças atuais.

O Brasil teve um déficit de R$ 216 milhões, o pior para um mês de março desde 1997, resultantes de despesas em alta e dos efeitos da inflação sobre a dívida, porém até agora, graças a um comportamento responsável que perdurou pelo menos até o ano de 2008 e principalmente graças à lei de responsabilidade fiscal, nossa dívida pública bruta é hoje um pouco superior aos 62% do PIB, porém, o alerta é que ela está em elevação.

De fato, este déficit ainda não modificou as crenças vigentes nos mercados, tais como: a situação fiscal do Brasil é muito melhor hoje; temos US$ 250 Bi de reservas; a dívida pública está sobre controle; a atual elevação do custeio será coberta pelas receitas advindas do crescimento futuro; as isenções fiscais foram responsáveis pela redução do superávit primário e por sairmos fortalecidos desta crise; o crescimento econômico está garantido pela entrada de capital externo para o Pré-sal, para a copa do mundo e para as olimpíadas...

De qualquer maneira, parece saudável revermos nossas crenças toda vez que novos conhecimentos estiverem à disposição.


Devemos ficar atentos, afinal, como saber qual crença é a verdadeira e justificada?

Fausto Morey
Para receber o Contraponto 9 na integra solicite pelo email: Faustomorey@hotmail.com



[1] Epistemologia ou teoria do conhecimento é um ramo da filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Bolhas, superbolhas e megabolhas - parte 2

Contraponto 8 - Especulação, euforia e pânico


A palavra “bolha” está na ordem do dia. Ela será utilizada no Contraponto para designar a valorização rápida, continuada e expressiva de bens, ativos ou commodities, sem motivo real ou fundamento econômico sustentável.


O fenômeno das bolhas é complexo e decorre de uma combinação de fatores emocionais e comportamentais, de sentimentos individuais, da assimetria no acesso às informações, de aspectos macroeconômicos e das apostas feitas pelos jogadores no mercado, entre outros. Porém, a natureza dura da economia sempre acaba por desfazer as ilusões e os sonhos, restabelecendo dolorosamente a realidade.

Os Galbraith's [1]disseram que na bolha de 1929 (e de 2008) as empresas eram planejadas com base na crença de ser possível ganhar dinheiro fácil. A especulação excessiva, os recordes de venda e de preços das ações levaram o mercado à euforia, mas subitamente, “do nada”, a bolha estourou e o pânico se instalou.


Reinhart e Rogoff afirmam que “as grandes bolhas ocorrem em intervalos espaçados por anos ou até mesmo décadas, criando a ilusão que “desta vez é diferente”. Vários sinais precursores da crise imobiliária nos EUA foram emitidos por uma década, entre eles, a escalada sem precedentes dos preços dos imóveis e o declínio da poupança dos americanos de sua taxa média histórica de 9% do PIB em 1993 para zero no final de 2007.


Encontramos nas bolhas um pouco das características comuns e ordinárias dos “contos do vigário” e de seus tradicionais personagens: os espetaculares e respeitáveis trapaceiros como Bernard Madoff e Ken Lay, os descuidados que crêem em versões simplificadas da realidade, os inocentes esperançosos em obter ganho fácil e políticos e agentes públicos omissos ou coniventes.


A exuberância irracional


Hoje, alguns notáveis são responsabilizados pela crise de 2008, entre eles, o Sr. Alan Greenspan que teria propiciado a formação de bolhas como a da Internet e a do subprime por ter mantido os juros reais baixos demais quando era presidente do Federal Reserve – FED entre 1987 e 2006, e o ex-presidente Bill Clinton que estimulou a concessão de crédito imobiliário para a população pobre dos EUA através de hipotecas subprime.


Na verdade, a redução dos juros de longo prazo começou antes da posse do Sr. Greenspan, mas ele a intensificou ao longo de seus quase 20 anos de comando no FED. (Vide o gráfico 1). 

A concessão do crédito hipotecário subprime foi seguida pelo “empacotamento” e distribuição destes títulos no sistema bancário do mundo, resultando em um fluxo permanente de dinheiro novo à expansão imobiliária. Apesar do custo da construção civil ter ficado estável ou até mesmo caído, os preços médios dos imóveis quase dobraram entre o 2000 e 2007, O custo cai, mas o preço sobe, seria isto “uma nova paisagem financeira”...?


Será que há bolhas em gestação no Brasil?

Não é possível afirmar se há bolhas em gestação no Brasil, mas certos dados parecem estar “fora do eixo”. Dentre eles, citamos:

- Valorização do Real - queda da relação entre o cambio efetivo e salários médios nominais (vide gráfico 2);


- Declínio dos superávits comerciais e aprofundamento do déficit em transações correntes (tratado no Contraponto 4);

- Preços dos ativos subindo acima da inflação e do crescimento real do PIB;

- Baixa formação bruta de capital (investimentos) combinado com taxas de crescimento do consumo superiores às do crescimento da produção;

- Aceleração da inflação apesar da queda da taxa de câmbio.


Serão estes os indícios de uma nova e benéfica paisagem financeira ou ai tem?!




 [1] “1929 - A Grande Crise” de 1955 de John Kenneth Galbraith foi reeditado recente com uma introdução de James K. Galbraith sobre a crise de 2008-2009.



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