A palavra “bolha” está na ordem do dia. Ela será utilizada no Contraponto para designar a valorização rápida, continuada e expressiva de bens, ativos ou commodities, sem motivo real ou fundamento econômico sustentável.
O fenômeno das bolhas é complexo e decorre de uma combinação de fatores emocionais e comportamentais, de sentimentos individuais, da assimetria no acesso às informações, de aspectos macroeconômicos e das apostas feitas pelos jogadores no mercado, entre outros. Porém, a natureza dura da economia sempre acaba por desfazer as ilusões e os sonhos, restabelecendo dolorosamente a realidade.
Os Galbraith's [1]disseram que na bolha de 1929 (e de 2008) as empresas eram planejadas com base na crença de ser possível ganhar dinheiro fácil. A especulação excessiva, os recordes de venda e de preços das ações levaram o mercado à euforia, mas subitamente, “do nada”, a bolha estourou e o pânico se instalou.
Reinhart e Rogoff afirmam que “as grandes bolhas ocorrem em intervalos espaçados por anos ou até mesmo décadas, criando a ilusão que “desta vez é diferente”. Vários sinais precursores da crise imobiliária nos EUA foram emitidos por uma década, entre eles, a escalada sem precedentes dos preços dos imóveis e o declínio da poupança dos americanos de sua taxa média histórica de 9% do PIB em 1993 para zero no final de 2007.
Encontramos nas bolhas um pouco das características comuns e ordinárias dos “contos do vigário” e de seus tradicionais personagens: os espetaculares e respeitáveis trapaceiros como Bernard Madoff e Ken Lay, os descuidados que crêem em versões simplificadas da realidade, os inocentes esperançosos em obter ganho fácil e políticos e agentes públicos omissos ou coniventes.
A exuberância irracional
Hoje, alguns notáveis são responsabilizados pela crise de 2008, entre eles, o Sr. Alan Greenspan que teria propiciado a formação de bolhas como a da Internet e a do subprime por ter mantido os juros reais baixos demais quando era presidente do Federal Reserve – FED entre 1987 e 2006, e o ex-presidente Bill Clinton que estimulou a concessão de crédito imobiliário para a população pobre dos EUA através de hipotecas subprime.
Na verdade, a redução dos juros de longo prazo começou antes da posse do Sr. Greenspan, mas ele a intensificou ao longo de seus quase 20 anos de comando no FED. (Vide o gráfico 1).
A concessão do crédito hipotecário subprime foi seguida pelo “empacotamento” e distribuição destes títulos no sistema bancário do mundo, resultando em um fluxo permanente de dinheiro novo à expansão imobiliária. Apesar do custo da construção civil ter ficado estável ou até mesmo caído, os preços médios dos imóveis quase dobraram entre o 2000 e 2007, O custo cai, mas o preço sobe, seria isto “uma nova paisagem financeira”...?
Será que há bolhas em gestação no Brasil?
Não é possível afirmar se há bolhas em gestação no Brasil, mas certos dados parecem estar “fora do eixo”. Dentre eles, citamos:
- Valorização do Real - queda da relação entre o cambio efetivo e salários médios nominais (vide gráfico 2);
- Declínio dos superávits comerciais e aprofundamento do déficit em transações correntes (tratado no Contraponto 4);
- Preços dos ativos subindo acima da inflação e do crescimento real do PIB;
- Baixa formação bruta de capital (investimentos) combinado com taxas de crescimento do consumo superiores às do crescimento da produção;
- Aceleração da inflação apesar da queda da taxa de câmbio.
Serão estes os indícios de uma nova e benéfica paisagem financeira ou ai tem?!
[1] “1929 - A Grande Crise” de 1955 de John Kenneth Galbraith foi reeditado recente com uma introdução de James K. Galbraith sobre a crise de 2008-2009.
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