Contraponto 5 - As contas públicas, o calcanhar de Aquiles
Em janeiro de 2008, O United States Government Accountability Office - GAO apresentou ao senado americano o documento “Long-Term Fiscal Outlook - Action Is Needed to Avoid the Possibility of a Serious Economic Disruption in the Future”, afirmando que, sem a adoção de um profundo pacote de ajustes, os EUA enfrentariam uma espiral de crescimento dos déficits públicos motivados principalmente pelos desajustes do sistema de saúde pública.
Em abril de 2008, uma versão revisada do relatório previa que em 30 anos, o déficit público americano poderia situar-se na faixa de 6% e 15% do PIB ao ano situação que, do ponto de vista do GAO, seria insustentável. O mesmo relatório previa que em 2008 o déficit público americano ficaria abaixo dos 4% do PIB. Ambos os documentos foram publicados antes da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. De lá para cá, a situação agravou-se consideravelmente, pois o enfrentamento da crise bancária e a perda de arrecadação advinda do aprofundamento da recessão americana elevaram o déficit público corrente para 11% do PIB.
Somente no mês passado, o déficit público dos EUA atingiu inimagináveis US$ 221 bilhões, o maior da história para um único mês. Comparativamente, o pico de dívida externa brasileira total atingiu algo próximo a este valor...
Estoque da dívida pública
Em função do crescente desequilíbrio das contas, o estoque de dívida pública americana cresceu de forma contínua desde 1999. Após 2003, o ritmo acelerou-se e o montante mais que dobrou, podendo atingir US$ 13.4 trilhões em setembro de 2010, o que representará mais de 91% do PIB.
Conforme abordamos no Contraponto nº1, o problema americano não é isolado, porém os países têm conseguido, até o momento, vender seus títulos para bancos, investidores e governos. O Brasil detém hoje mais de US$ 180 bilhões. A China, ao lado do Japão, é o maior credor, com mais de US$ 800 bilhões, mas vem reduzindo a sua exposição aos títulos americanos.
A redução do déficit público e do estoque da dívida não é tarefa fácil, há obstáculos políticos significativos. Os EUA terão que realizar reformas profundas e polêmicas em muitos programas governamentais, tais como no sistema de saúde, que hoje consome mais de US$ 2.2 trilhões ao ano, nos subsídios agrícolas, na NASA, nos gastos militares, e, eventualmente, aumentar impostos!
As agências de risco começam discretamente a comentar sobre a gravidade da situação e sobre um eventual rebaixamento da nota de crédito, em especial, dos títulos dos EUA e da Inglaterra.
O dólar é a moeda do mundo e o EURO, a moeda aspirante, também está sendo contestada em função dos crescentes déficits orçamentários verificados na zona do EURO.
Quem tem dinheiro e disposição para financiar os déficits públicos, com que taxa de juros e por quanto tempo? O que será das outras moedas do mundo?
Fausto Morey
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